Ao longo da história, o conceito de arte tem sido moldado por valores como permanência, domínio técnico e controle criativo. Obras que ocupam o espaço físico sempre foram associadas à ideia de solidez e imobilidade, como se fossem imunes ao tempo.
No entanto, uma nova corrente de criação rompe com essa lógica, trazendo à tona peças que não apenas ocupam um lugar, mas se alteram dentro dele. Essas manifestações não estão interessadas em durar para sempre, tampouco em permanecer estáticas.
Elas crescem, se modificam e desafiam qualquer expectativa de imutabilidade. É nesse contexto que surge uma proposta ousada: dar existência a entidades artísticas com comportamento próprio. Diferente de instalações que apenas sugerem movimento ou metamorfose, essas formas incorporam um dinamismo real, que se manifesta através da ação de organismos vivos, reações químicas ou processos de crescimento contínuo.
O resultado é uma experiência em que a criação escapa ao controle total do autor, agindo de maneira quase independente, como se possuísse um ciclo de vida próprio. Em vez de serem apenas contempladas, essas obras são acompanhadas em sua evolução.
Essa abordagem não visa simular a vida, mas partilhar com ela um mesmo ritmo: nascimento, transformação e, em alguns casos, deterioração. Longe de funcionar como mensagens didáticas ou veículos de protesto ambiental, essas criações propõem uma nova relação com o tempo e com o ato de criar.
Trata-se de abandonar a ideia de conclusão e abraçar a instabilidade como potência estética. O que se vê não é apenas uma peça de arte, é um organismo em desenvolvimento, cuja existência não depende da aprovação humana para justificar-se.
1. Formas com Vontade Própria: Quando o Material Deixa de Ser Matéria
Ao se trabalhar com elementos que não obedecem à rigidez dos materiais tradicionais, como mármore ou bronze, o artista se depara com outra lógica de composição. Fungos, culturas microbianas, cristais em formação e estruturas celulares reagem ao ambiente, à umidade, à luz e até a presença humana.
Esses materiais são suporte, são agentes. Não esperam ordens, mas interagem com aquilo que os cerca, criando novas possibilidades que fogem ao planejamento inicial. Nesse tipo de obra, a matéria não é estática. Ela se comporta, reage, altera sua aparência e estrutura.
Há uma diferença marcante entre moldar um bloco de pedra e cultivar micélios, por exemplo. No primeiro caso, a intervenção é direta e definitiva. No segundo, é necessário instaurar condições e esperar. Isso exige uma escuta sensível e, por vezes, uma postura de coautoria.
Não se trata de impor uma forma, mas de acompanhar um processo orgânico e imprevisível. A mudança de paradigma é radical, o que antes era pensado como composição visual passa a ser experimentado como fenômeno contínuo.
A matéria não se limita a ser observada, ela age. Essa ação transforma a própria função da arte, deixa de ser uma afirmação sobre o mundo e passa a ser um acontecimento nele. A vitalidade dos elementos utilizados revela que não há fim, apenas pausas entre estados transitórios.
Nesse fluxo, o que chamamos de “obra” pode muito bem não ser uma coisa, mas uma sequência de eventos encarnados em forma.
2. A Matéria em Estado de Transformação: Fungos, Micélios e Reações Orgânicas como Forma Viva
Trabalhar com organismos que crescem, apodrecem ou se fundem entre si exige uma mudança completa na forma como compreendemos o fazer artístico. Nesse universo, a transformação não é um resultado colateral, mas o próprio núcleo do processo.
As obras não nascem prontas, tampouco se fixam em um formato ideal. Elas se revelam em etapas, com variações que, longe de serem defeitos, são essenciais à experiência. Um broto que surge onde antes havia um vazio, uma colônia de fungos que se expande sobre uma base inerte, tudo isso integra a lógica dessas criações que insistem em não parar.
O micélio, por exemplo, representa uma das estruturas mais simbólicas dessa abordagem. Invisível à primeira vista, ele se espalha silenciosamente por superfícies e interiores, criando conexões que desafiam a rigidez formal.
Ele não respeita margens, não reconhece moldes, seu impulso é ramificar-se. Ao incorporá-lo como elemento essencial, o artista abre mão do controle e entrega parte de sua obra ao imprevisível. Esse gesto não é uma renúncia, mas uma escolha consciente de compartilhar autoria com aquilo que vive sem pedir licença.
Outros materiais, como culturas bacterianas e reações químicas de lenta ativação, também desempenham papel semelhante. Eles introduzem o fator tempo como dimensão concreta, não mais simbólica. A ação contínua dessas substâncias modifica texturas, cores e volumes à medida que os dias passam, criando um espetáculo silencioso de surgimentos e desaparecimentos.
O observador, por sua vez, deixa de ser mero espectador e torna-se testemunha de uma sequência de metamorfoses, cuja lógica interna não é totalmente compreensível. É nesse estranhamento que reside boa parte da potência dessas obras mutáveis.
3. A Expansão da Arte Tridimensional na Contemporaneidade
Essas formas vivas e mutáveis representam um novo capítulo da arte tridimensional. Mantêm o princípio de ocupar o espaço com volume e presença física, mas levam essa linguagem a outro patamar ao incorporar materiais que crescem, apodrecem ou reagem ao ambiente com comportamento próprio.
Em vez de permanecerem fixas ou encerradas em si mesmas, essas criações se transformam continuamente. A matéria se manifesta em estado ativo, e a forma se torna imprevisível. O entorno não funciona apenas como suporte, é parte integrante do processo, interferindo nas mudanças e nos ciclos que a obra atravessa.
Trata-se de uma abordagem expandida, em que a tridimensionalidade não se limita à construção de estruturas estáveis, mas inclui movimentos, reações e ritmos orgânicos. A obra não apenas ocupa um lugar: ela acontece, se modifica e, por vezes, escapa à própria intenção inicial.
4. Escultores ou Criadores de Ecossistemas Estéticos?
A figura do artista, nesse contexto, deixa de ser um moldador de formas para se tornar algo próximo a um cuidador de sistemas. Em vez de impor uma estrutura definitiva, ele cultiva condições. Seu papel se aproxima do de um jardineiro experimental, alguém que prepara o ambiente, introduz os agentes certos e observa como as relações se estabelecem.
Trata-se menos de fabricar algo e mais de propiciar o surgimento do inesperado. A obra, nesse caso, é o que emerge das conexões criadas entre os elementos vivos e o espaço ao redor. Há uma complexidade implícita nesse tipo de criação.
Ao trabalhar com organismos autônomos, ele precisa aceitar a impermanência como parte do processo. Isso significa que formas previstas podem nunca se concretizar, enquanto outras, imprevistas, tomam o protagonismo.
Esse desapego da forma final transforma a atividade artística em uma espécie de escuta ativa, onde o criador acompanha os desdobramentos sem tentar antecipá-los ou contê-los. Ele assume o papel de facilitador, e não de legislador.
Muitos nomes contemporâneos têm se dedicado a essa prática.
Anicka Yi
Anicka Yi é uma artista sul-coreana radicada em Nova York que trabalha com ciência, tecnologia e organismos vivos. Sua produção envolve frequentemente colônias de bactérias, fungos, essências olfativas e materiais perecíveis.
Em vez de buscar uma forma estática, ela propõe experiências sensoriais que evoluem com o tempo, onde o cheiro, a decomposição e a proliferação biológica são partes integrantes da proposta estética. Yi é conhecida por transformar galerias em espaços laboratoriais, onde o invisível (como as bactérias) se torna protagonista.
Seu trabalho questiona os limites entre biologia e máquina, corpo e ambiente.
Daro Montag
Montag é um artista britânico cujo trabalho gira em torno da colaboração com processos naturais. Ele desenvolve obras que envolvem decomposição, transformação orgânica e reações de microrganismos. Um de seus projetos mais conhecidos é o Bioglyphs, no qual ele espalha frutas e vegetais sobre superfícies fotossensíveis, deixando que os microrganismos deixem suas impressões durante o processo de deterioração.
O resultado são imagens únicas, criadas em parceria com colônias invisíveis, revelando que a criação estética pode surgir do caos e da decadência. Seu foco está no tempo biológico como ferramenta de composição visual.
Gilberto Esparza
Artista mexicano que trabalha na interseção entre arte, ecologia e tecnologia. Esparza cria dispositivos híbridos que imitam organismos vivos, como máquinas que se alimentam de poluentes ou que carregam plantas sobre estruturas robóticas.
Seu trabalho mais emblemático talvez seja o Plantas Nómadas, uma espécie de criatura robótica autossuficiente que se move, coleta água poluída, filtra-a com ajuda de bactérias e alimenta as plantas que carrega.
Suas criações colocam em evidência a ideia de autonomia e de simbiose entre vida artificial e natural, além de propor um olhar crítico sobre a presença humana no ambiente, sem precisar usar discursos explícitos para isso.
O que une esses criadores é a disposição em abandonar o controle total, permitindo que suas obras sejam moldadas por agentes que não seguem regras humanas.
5. O Colapso da Escultura Clássica: Quando a Obra se Torna Um Outro
Ao longo dos séculos, a arte volumétrica foi definida por seu caráter duradouro, estável e delimitado. Formas precisas, muitas vezes fixadas em materiais considerados nobres, como mármore ou metal, construíram uma noção de permanência associada ao valor estético.
No entanto, quando o processo criativo passa a envolver agentes que se desenvolvem por conta própria, esse modelo se dissolve. As fronteiras entre obra e organismo se confundem. O que antes era contemplado como um objeto fixo passa a ser percebido como algo em fluxo, um ser em constante vir-a-ser.
Essa mudança tem implicações profundas. A peça deixa de representar ou simbolizar a vida e passa a incorporá-la, com todas as suas imprevisibilidades. Não se trata mais de dar forma ao que está vivo, mas de permitir que o próprio viver seja o motor da criação.
Com isso, surge um novo tipo de presença, não uma entidade simbólica, mas algo que pulsa, reage, se adapta. Em vez de transmitir uma mensagem fechada, essas criações propõem uma convivência aberta, onde a relação com o público se dá no tempo, e não apenas no olhar.
Nesse cenário, a autoria torna-se porosa. O artista é apenas um entre vários agentes que colaboram para a existência da obra. Os processos de decomposição, crescimento, fusão ou mutação atuam com autonomia, recusando a previsibilidade.
Assim, o que se produz não é apenas uma imagem ou forma, mas uma convivência entre forças distintas, nem todas humanas. A arte, nesse estágio, deixa de depender do espectador ou do contexto expositivo para existir.
Ela não espera ser interpretada, continua acontecendo, mesmo quando ninguém está por perto para vê-la.
Reflexões Finais
Ao observar essas manifestações que crescem, desmancham e se refazem por si só, somos convidados a repensar nossa própria posição diante da criação artística. A obra deixa de existir para ser olhada e passa a existir por ela mesma.
Esse deslocamento do foco, do espectador para o próprio fenômeno, redefine não apenas o conceito de arte, mas também o lugar do humano dentro dela. O artista não é mais a figura central, e o público não é mais o destino final.
Há algo ali que pulsa com autonomia, que independe da nossa presença ou entendimento para continuar acontecendo. Esse tipo de arte nos leva a confrontar a efemeridade sem medo, a reconhecer o valor do processo acima do produto e a aceitar que a transformação pode ser mais potente do que a estabilidade.
Há beleza na decomposição, na proliferação aleatória de formas, na desorganização que revela padrões não humanos. Ao permitir que as obras escapem da previsibilidade e se comportem como entidades com vontade própria, abre-se espaço para uma nova sensibilidade.
Uma que não busca impor sentido, mas acolher a complexidade do que é instável, mutável, vivo. Talvez o futuro da arte que ocupa o espaço não esteja mais na tentativa de capturar o eterno, mas na criação de condições para que o efêmero se manifeste com força total.
Não como um gesto de denúncia, nem como apelo simbólico, mas como experiência direta de existência compartilhada. Nesse cenário, o fazer artístico se aproxima da biogênese, não se esculpe, se cultiva. E aquilo que surge, mesmo que temporário, carrega um poder que não depende de olhos humanos para ser real.